“Bip bip”

Caso você entenda inlês, sugiro que leia esse texto na língua na qual foi originalmente escrito.

Hoje uma pequena nave pousou na minha cabeça. É claro que eu não me dei conta imediatamente. Vinha descendo a rua e senti uma espécie de picada. Uma dessas tão incrivelmente aborrecedoras que obrigam a pessoa a parar o que quer que esteja fazendo só pra tentar coçá-la ou fazer qualquer outra coisa o mais rápido possível.

E foi exatamente isso que fiz. Primeiro pensei que era um mosquito, desses que tem por aí. Mas a picada estava doendo demais, o que me levou a concluir que devia ser uma outra coisa, provavelmente uma abelha.

Na verdade cheguei a essa conclusão durante os instantes nos quais a minha mão atravessava o espaço entre a posição onde estava e o local na minha cabeça onde tinha sentido a picada. (Por que isso importa?) Essa decisão fez com que o meu braço desacelerasse e a minha mão atingiu o alvo muito menos violentamente do que achou que ia quando saiu em direção a ele. Mas nada disso importou, talvez porque eu não tenha chegado a conclusão de que poderia ser uma abelha rapido o suficiente, ou então porque meu braço não é bem treinado para realizar o movimento que lhe foi pedido.

Não, não importou: o que quer que fosse, foi esmagado na hora em que a palma da minha mão chegou. Eu sentia que estava esmagado, mas também sentia que era diferente do que estava esperando. Tão diferente, pra ser sincero, que demorei ainda mais do que da outra vez para chegar a uma conclusão: na realidade não era uma abelha, nem um inseto, muito menos algo orgânico, parecia metálico. “Talvez papel alumínio” pensei que poderia dizer enquanto pensava em mim mesmo contando a história mais tarde. Mas nem isso era totalmente verdade; conforme aproximei essa coisa dos meus olhos pra analisá-la melhor, não foram eles, mas meus ouvidos que não acreditaram: eu podia ouvir um sutil som vindo dessa coisa, que, agora tão perto dos meus olhos, podia ver e descrever como um estranho pequeno pedaço de batata cozida escapando o seu invólucro original de papel alumínio.

Não me lembro muito bem o que aconteceu depois, mas tenho quase certeza que ouvi o som incrivelmente agudo que me lembrou aquele que raramente fazem os carros quando os pneus derrapam no chão de um jeito muito específico. Ainda assim, o ruído era muito sutil, e ficava cada vez mais sutil conforme passava o tempo em que eu simplesmente ficava ali parado sem fazer nada.

A essa altura, de alguma forma, eu já tinha bastante clareza do que estava acontecendo: uma espaçonave do tamanho de um grão de arroz, provavelmente depois de ter viajado mais tempo do que vale a pena mencionar, chegou à Terra e pousou na minha cabeça; mas, antes de poder fazer qualquer outra coisa, eu a esmaguei sem nenhum remorso ou conhecimento das minhas ações. Imediatamente me senti culpado (mas, devo admitir, muito menos do que deveria, considerando a situação).

Eu ainda não tinha a menor idéia do que deveria fazer, então acho que fiz o que qualquer um faria nessas condições: fechei a mão, tomando cuidado pra não destruir mais ainda a nave, e corri pra casa o mais rápido que pude. É difícil explicar, agora que penso nisso com mais clareza, mas pensei na hora que, de alguma forma, estaria mais bem equipado em casa para ajudá-los se estivéssemos em casa.

O que é ainda mais difícil de explicar é como eu, sem perceber, deixei o negócio cair no chão enquanto corria e cheguei em casa com nada mais do que um rosto mais suado do que eu tinha tido em anos e uma mão vazia. É verdade.

Esse curtíssimo conto é parte de uma série de contos nunca antes publicada (e, provavelmente, inpublicável) simplesmente pois foram escritos, serialmente, por ninguém menos que eu (que nunca se deu ao trabalho de publicá-los).

rhwinter, 27 de April de 2007
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